01 outubro 2010

Quase

Às vezes a cidade nos presenteia com momentos tão profundamentes reais, tão fundamentalmente humanos, que a parcela da nossa alma que é mais sensibilizada é justamente aquela que não se dá com palavras, mas que sabe falar à sua maneira.

É quase fome, é quase dor, são quase lágrimas, é quase tristeza, é quase pena, é quase piedade, é quase revolta, é quase indiferença, é quase uma palavra.

É quase tanta coisa que acaba não sendo nada.

27 setembro 2010

Fome

Naqueles dias quando eu tinha mais irmãos do que amigos a casa era grande demais, lá estavam os cachorros, as árvores, a família, mas também havia todo aquele espaço entre eles, e o tempo durante o qual não estavam lá; eu sentia coisas cujos nomes eu não sabia, eu vivi uma adolescência do espírito com todas aquelas mudanças revoltosas e inevitáveis, descobri alguma coisa nascida do silêncio e da distância, uma coisa que hoje eu arrisco chamar de solidão.

Mas quando se é criança essas palavras todas não possuem significado, os sentimentos só estão por lá, espécies estranhas de fome, e eu me apegava a coisas que estavam ao alcance das mãos, o cabo de vassoura, o lençol branco - ou como eram então conhecidos: a espada e a armadura do cavaleiro, ou qualquer coisa assim que me facilitasse a luta contra tantos demônios invisíveis; os pobres cachorro: dragões, leões, sempre maiores que a própria vida.

Não sei se havia maldade, talvez as crianças se mantenham imunes por um tempo maior do que sou capaz de imaginar, mas os pequenos atos de rebeldia já estavam por lá, a tesoura e as roupas no varal, a água e as formigas, o fogo sempre fácil demais, e eu destruí alguns mundos nas tardes lentas antes do futebol só porquê a TV não me agradava, eu fugia dos alienígenas saídos diretamente da reportagem no jornal, mas logo o frio na barriga passava com o som do portão abrindo e do hospital ficando pra trás, mas trazendo sempre seu perfume discreto nos cabelos dos meus pais.

Hoje todo esse mundo me parece simples e a sua simplicidade é assustadora, o espaço demasiado entre o conforto da companhia e a ameaça da imaginação, o tempo que não se media pelos relógios, as horas que se prolongavam infinitamente, a ausência; mas essas coisas todas nunca estiveram por lá, eram só espécies estranhas de fome que eventualmente morriam, eram sentimentos sem nomes e sem donos que hoje eu tento abraçar como meus, mas sem saber direito se cresceram irreversivemente através dessa adolescência do espírito em cuja voz e o rosto não mais se reconhecem

Contudo, assim como hoje, quando se matava a fome a felicidade estava sempre à mesa.

24 setembro 2010

O fundo da gaveta #7 (Ou, bem, quem se importa)

Hoje não chove, mas poderia; minha mente está preparada para a chuva, para uma cortina gelada chocando-se contra as janelas, o vapor das xícaras, o arrastar dos chinelos, o nariz resmungando quando o ar é pouco, quando o espirro é úmido. Hoje não chove, mas poderia.

O cabo nas mãos, a panela no chão; alho, cebola e azeite extra virgem desenhando uma paisagem sobre o piso amarelado, um parafuso ainda rolando lentamente até sumir sob a bancada de mármore - um estalo confirma que deve ter se recostado à parede onde as mãos não alcançam sem os joelhos no chão -; uma mancha gorda crescendo nas meias brancas, os dedos que começam a sentir o que os olhos acompanham indignados, os ouvidos surdos recobrando seu controle mas vendo-se tomados por um som que não estava lá, as chamas azuis chiando com o azeite que borbulha, com a cebola que queima, com o gás que escapa.

Hoje não chove, mas poderia; alguma coisa que congelasse os ossos pra tornar o banho inevitável, alguma coisa que destruísse o conforto das pantufas, que levasse o cheiro de sono dos cabelos embora, que trouxesse a consciência de volta pra essa sala, pra essa cadeira, pra essas mãos sem bolsos. Hoje não chove, mas poderia.

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E não é que "choveu", só que com mais aspas do que água.

11 setembro 2010

Cidade grande

Uma multidão pode ser o lugar mais solitário do mundo, há sempre uma nuvem sobre nossas cabeças, a desconfiança, o medo, a violência, a pobreza que agride nossos olhos, aos poucos os outros se fundem em uma só coisa, essa massa disforme que não nos diz respeito, indiferença, cegueira voluntária, surdez seletiva, e tudo isso somos nós também, toda tentativa de relegar esse mundo só confirma a mais completa imersão em um estado de espírito coletivo de absoluta individualidade.

Sempre tive um certo orgulho de não fazer parte, uma daquelas ferramentas enferrujadas que nos garantem qualquer forma de conforto para o orgulho, aquele degrau que nos separa do mundo para podermos dizer com certeza que não fazemos parte desses números, que não compartilhamos uma fatia gorda de culpa nos rumos duvidosos pelos quais somos obrigados a seguir, como se não houvessem pernas para caminhar sozinho.

Mas de quando em quando a realidade alcança, paramos de sonhar por um segundo e o mundo já está à porta com notícias novas, com um espelho em mãos que por tanto tempo nos recusamos a encarar, e aí o mundo deixa de ser a tela da televisão, a manchete de jornal, e o mundo todo está logo ali refletido diante dos nossos olhos, e a nossa parcela de culpa é ensurdecedora, nossa ignorância de analfabetos, nosso rancor cangaceiro, nossa indiferença marginal, nossa pompa baronesca.

Talvez a terra seja culpada, talvez haja alguma coisa por baixo disso tudo; eu que sempre achei que esse selo original nos houvesse imprimido uma certa intransitividade, uma coisa que resistisse às forças do tempo, deixo a terra vermelha e os pastos do sangue em outra conjugação e me sujo com uma paleta nova, irreconhecínel, inominável; talvez a terra seja forte demais quando está sob nossos pés, talvez haja alguma força desconhecida que atraia a alma para outras direções, que nos deforme em qualquer sentido, uma gravidade moral que nos agarra e nos arrasta a padrões cada vez mais baixos, a planícies culturais cujos limites a imaginação não alcança, mas que estão perigosamente fendidas de abismos inimaginavelmente profundos.

Hoje eu sei que o nosso baú é pequeno, que a vida toda é escolher as coisas das quais estamos dispostos a abrir mão, que o nosso inventário é condicionado mas que as regras que seguimos estão camufladas sob uma inocência fantástica e que a liberdade também está por vezes escondida em trajes de inevitabilidade, com medo de dizer em voz alta que decidimos abrir mão de partes importantes de nossas vidas por razões que talvez sejam até justificáveis, mas não facilmente compreensíveis.

Eu falo muito sobre o tempo e sobre a terra, e cada vez que eu descubro uma peça nova dentro do meu baú eu entendo porque há um gosto amargo no fundo da garganta, porque há borboletas no meu estômago; contar histórias é uma maneira de aprender, e só através de tudo isso eu começo a ver por trás de todas as camuflagens da determinação e do livre-arbítrio, entender os efeitos da terra sobre o espírito, o efeito das ações nas pessoas, das pessoas nos sentimentos,
do mundo sobre mim.

E tudo isso talvez seja uma forma de pedir desculpas a mim mesmo, e falando em voz alta talvez outras pessoas me desculpem também.

16 julho 2010

Nem com dez

"Uma vez topamos com um bando de peregrinos estúpidos lá pros lados do Llano e o velho que era o chefe deles foi logo falando em holandês como se a gente estivesse no país dos holandeses e o juiz respondeu sem nem piscar. Glancon quase caiu do cavalo. A gente nunca tinha ouvido ele falar assim. Quando nos perguntamos onde aprendeu sabe o que ele disse?

O que ele disse?

Disse que com um holandês

O ex-padre cuspiu. Eu não aprendia nem com dez holandeses. E você?"

Meridiano de Sangue, Cormac McCarthy.


Me lembrei de um sonho - que nem é meu, mas já me falta na memória a casa de onde saiu - no qual pessoas discutiam em holandês, e lá estava eu a apontar os erros das inflexões, as brechas nas cadeias causais e coisa e tal; acordei triste com a certeza de que sou mais inteligente quando sonho.

14 julho 2010

Desses homens

Sou desses homens que não choram em cena, mais pra Woody do que Penn, desses homens criados com mertiolate e ovos no café da manhã, homens que usam canetas e não se importam se a borracha não pode consolar, homens que dormem sem pijamas com a roupa do dia já quente pro dia seguinte, sou um desses homens que tem ossos duros e canelas afiadas a lascar as canelas das mesas, sou desses homens que não tem gatos, homens com histórias de coisas distantes e outros mundos de fantasia, rudes, barbudos, de olhos baços e lábios ressecados, desses homens sem pressa e de caminhar pesado, de pés sempre nos mesmos sapatos.

Sou um desses homens que não choram em cena, porque é no choro que a cena acaba, sem fôlego pra mais nada além da vergonha, além do ensaiar impotente de qualquer coisa que nem sei; desses homens criados com mertiolate no joelho e beijos de mãe na testa, de ovos cozidos em xícaras de café floridas; sou desses homens que usam canetas em cartas de amor, porque o amor é uma coisa que borracha nenhuma apaga; sou desses homens que dormem sem pijamas na frente da TV, escutando música, cheio de sonhos e carinhos; sou desses homens que tem ossos duros e canelas afiadas, deitado de meias de lã me esfregando nos pés macios dela; sou desses homens que ainda não tem gatos, mas que já tem nomes e vontades guardadas no bolso; sou desses homens com histórias de coisas distantes, de cidades de infância, rudes por serem Homens, barbudos pelo sangue, de olhos baços e lábios ressecados nessa madrugada profunda sob as cobertas a dividir histórias e o frio; sou desses homens sem pressa e de caminhar pesado, meio sem ter pra onde ir, meio não querendo ir pra lugar nenhum, de pés sempre nos mesmos sapatos - as pantufas dela que ficaram pra trás.

04 maio 2010

A bruxa

Uma bruxa entrou pelas cortinas fechadas,
Me pediu ingredientes antigos e sangue fresco,
Eu disse que não tinha muito o que oferecer,
Disse que tinha medo e saudade,
Disse que tinha amor e esperança,
A bruxa me pediu liberdade, me pediu inconsequência,
Eu disse que esses ingredientes faltavam a todos,
A bruxa me disse que era velha, que era rainha,
Me disse que viu o pecado nascer,
Que viu a força irrefreável dos homens no solstício dos tempos,
A bruxa me disse que ela era mais velha que o bem e o mal,
Que não conhecia os pormenores do certo e o errado,
Que era uma força da natureza guiada pelas marés do mundo,
Sem certo, sem errado,
Na crua violência e justiça da inocência,
A bruxa sacudiu a terra e rachou os céus,
Ela me pediu o coração,
Lhe ofereci minhas intenções,
Ela as recusou como se fossem vinho azedo,
Me disse que não queria propósitos, queria possibilidades,
E esperanças?
Só as não sonhadas, só aquelas que corriam soltas pelas estepes do futuro,
Perguntei-lhe o nome,
Chamou-me ousado, ferino,
Homens sempre nomeando as coisas,
Amarrando tudo pelas palavras no desespero tolo de controlar o que não conhecem,
Perguntei-lhe quem era,
O todo, a canção, a noite, aquilo que foge do alcance das palavras,
Eu disse que não tinha nada a oferecer
A bruxa me olhou sem olhos, me tocou sem mãos,
Ela me disse que ainda sou pouco, que ainda somos pouco,
Que agora entendia que somos assim frágeis,
Assim tolos,
Que fazemos pouco em existir,
Que não há nada que nos possa tirar sem que viremos nada,
Sem que sejamos conjugados em um tempo fora do tempo,
Lhe pedi desculpas,
A bruxa disse que isso podia me dar,
Ela me pediu tempo,
Paciência para que as coisas das estepes do futuro possam chegar,
Que elas sempre chegam na hora,
Hora que não é certa nem errada,
E eu disse que isso podia lhe dar.