A velha da padaria lavando a calçada, o céu nublado, o vento da madrugada ainda resmungando apesar da manhã, ponto cheio, ônibus vazio; do guarda-chuva eu lembrei, mas faltou o casaco, a toca quente a esconder as orelhas vermelhas, me encosto no muro, Scientia Kantiana, pancadão, fulano esteve por aqui, qualquer coisa assim que me cansa os olhos, os óculos engordurados e vontade nenhuma de tirar as mãos do bolso.
A cama ainda deve estar quente, e ela mais quente ainda, dormindo de mãos fechadas e janela aberta, os pés eu já não sei, bom, longe dos meus, longe de mim; eu aqui, nariz escorrendo, olhos apertados fingindo que me importo com o letreiro esfumaçado da condução, a velha da padaria molhando os meus pés, água gelada, vento também, e tudo me lembra ela, a cama vagarosamente abraçando nós dois, uma mão que tateia no escuro, a segurança, alguma coisa ali adiante, alguma coisa pra saber que está tudo bem, pro sono poder voltar sem medo.
Relógio na mão, hora e meia, ainda há tempo de voltar atrás, de largar tudo e voltar pra ela, beijar sua testa com carinho e dizer que eu nunca mais vou embora, me aconchegar no seu decote e sonhar com a música que bate dentro do peito; o letreiro denuncia, o corpo resistindo com todas as forças, os ossos enfraquecidos de saudade, mas uma voz me dizendo que vai ficar tudo bem, que a cama vai continuar quente, que os pés vão ficar mais próximos, que é pra sempre.
A gente volta, a gente sempre volta.
27 março 2010
25 março 2010
Irmandade
"We are all brothers under the skin - and I, for one, would be willing to skin humanity to prove it."
Ayn Raid.
Ayn Raid.
Sonhos
Sonhei com um acidente, ferro e fogo, gritos, confusão, família em agonia, morte e todas essas coisas; disseram para eu não me preocupar que quando é o sonho que nos diz, é exatamente isso que não vai acontecer, que estão todos protegidos, bom pressário, pomba branca no céu azul.
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Sonhei com o sucesso, sorrisos, felicidade sem reservas e a eternidade a se desenrolar como uma sinfonia, rostos, família, amor, pomba branca no céu azul; me disseram que é um sinal, que é a pomba, que é o céu me dizendo alguma coisa do futuro, oportunidades e porvir.
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Noite sem sonhos, sem pombas, mas de manhã o céu estava azul.
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Sonhei com o sucesso, sorrisos, felicidade sem reservas e a eternidade a se desenrolar como uma sinfonia, rostos, família, amor, pomba branca no céu azul; me disseram que é um sinal, que é a pomba, que é o céu me dizendo alguma coisa do futuro, oportunidades e porvir.
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Noite sem sonhos, sem pombas, mas de manhã o céu estava azul.
05 março 2010
São Paulo 40 graus
A chuva não durou muito, mas veio na hora certa, precisa, como um compromisso de amor antigo cercado de todos os seus rituais inabaláveis, a chuva chegou sem anúncio e sem nuvens escuras em meio a um sol de rachar, pedestres caminhando aos pulinhos no súbido desespero de meias e ternos molhados, mas a coisa toda foi só uma visita rápida, guarda-chuvas em punho mas nenhuma dignidade em abrí-los diante daquela timidez, o asfalto fumegando, o vapor cozinhando as canelas dos mendigos e dos atletas e ainda assim uma esperança enorme no ar.
O sol lá de fora é o mesmo aqui de dentro, as cortinas todas como peneiras idiotas, as janelas escancaradas e nenhuma brisa através desse pano todo, só o sol, como ela fosse nada, como fosse o vidro que eu fiz questão que não estivesse lá, e esse calor esquenta também os temperamentos, a paciência escorre pelos meus joelhos, ou talvez seja só o suor, mas há toda uma atividade de músculos e nervos e dentes que se debatem e rangem atirados no sofá, as costas coladas no couro, a TV que não ajuda, os livros que não seduzem, o banho quente demais.
Apesar do suor é uma coisa assim nova, assim boa estar por essas lados do mundo, conhecendo um lado da cidade que passava desapercebido, uma face bonita e suada que esconde essas pequenas coisas que nos faltam o ano todo, aquele restaurante vazio, o trânsito dando trégua, o depertador desligado, a casa com cheiro de casa.
A minha paciência ainda está escorrendo pelos joelhos, ou talvez seja só o suor, mas com essa música eu sempre consigo um pouco mais, e com aquela foto eu sempre consigo um sorriso, e com um telefonema eu sempre consigo um suspiro, e no final de um dia desses, de um dia quente desses, eu também acabo ficando quentinho por dentro.
O sol lá de fora é o mesmo aqui de dentro, as cortinas todas como peneiras idiotas, as janelas escancaradas e nenhuma brisa através desse pano todo, só o sol, como ela fosse nada, como fosse o vidro que eu fiz questão que não estivesse lá, e esse calor esquenta também os temperamentos, a paciência escorre pelos meus joelhos, ou talvez seja só o suor, mas há toda uma atividade de músculos e nervos e dentes que se debatem e rangem atirados no sofá, as costas coladas no couro, a TV que não ajuda, os livros que não seduzem, o banho quente demais.
Apesar do suor é uma coisa assim nova, assim boa estar por essas lados do mundo, conhecendo um lado da cidade que passava desapercebido, uma face bonita e suada que esconde essas pequenas coisas que nos faltam o ano todo, aquele restaurante vazio, o trânsito dando trégua, o depertador desligado, a casa com cheiro de casa.
A minha paciência ainda está escorrendo pelos joelhos, ou talvez seja só o suor, mas com essa música eu sempre consigo um pouco mais, e com aquela foto eu sempre consigo um sorriso, e com um telefonema eu sempre consigo um suspiro, e no final de um dia desses, de um dia quente desses, eu também acabo ficando quentinho por dentro.
24 fevereiro 2010
A Revolução de Maio
É lugar comum toda essa pompa dos tempos passados, a certeza de que perdemos alguma coisa irrecuperável ao longo dos anos, uma certa capacidade de ter capacidades irrevogáveis e mais fortes do que qualquer lâmina que nos colocassem corpo a dentro, toda geração torna-se a última, o mais heróico Alamo a sustentar as virtudes mais divinas de um povo tão humano que pouco de humanidade tem.
Hoje um velho me disse que os tempos mudaram, que os vermelhinhos já se acovardaram há muito, assim mesmo, vermelhinhos, sem Socialismo Real e sem nada, ele me disse que esteve presente durante a Revolução de Maio, adendo, "da qual você nem sequer ouviu falar", e que já não pode mais ser enganado, que já pagou o preço da idade e soube muito bem colher os seus frutos, que eu ainda sou novo, que tenho muito a aprender.
Um velho tucano é só um homem, é só uma ave procurando um bando que não sabe bem onde está, é uma criatura ameaçada por uma vida, por um tempo, por uma país que talvez não sejam mais seus, é um animal de bico duro e língua afiada e não mede palavras, que não se importa com estranhos, que sabe com a mesma certeza de que existe que a vida não é mais uma surpresa, que a vida pra valer já se acabou ali atrás nos velhos tempos, no velho Alamo, e que agora é tudo uma encenação, uma peça de crianças e papier maché.
"Da qual você nem sequer ouviu falar."
São poucos os momentos de forno à lenha e luz de velas que nos permitem sentar sem preocupações, escutar nossos avós desenrolarem lembranças de um mundo totalmente novo e ainda assim empoeirado, a fila na padaria, os cruzados novos, a banca do gato preto, e fica um sentimento de criança com borboletas nas mãos, com medo de respirar forte demais e destruir uma coisa que pouco faz por existir, uma coisa assim da qual eu nem sequer ouvi falar.
Mas eu também já vi suspiros e arrepios vindos da cadeira de balanço, uma coisa besta que encanta e seduz, a nova musa do carnaval, os planetas todos ali na televisão, um mundo todo que se sobrepõe ao nosso permeado de diários eletrônicos e fotos e mensagens instantâneas, as possibilidades todas de saudade amenizada com o toque de um botão, eu vi feitos que se imaginavam impossíveis serem superados um após o outro como fossem nada, e eu assisti a tudo isso com uma naturalidade de quem se sente em casa.
Se as pessoas realmente podem ser de outro tempo, se o vir a ser realmente nos impõe um selo irrevogável que nos condena a um estado de coisas aquém das coisas do mundo, do hoje, se ele nos obriga e condiciona a uma mentalidade temporalmente cristalizada, o que existe não é uma vida, é um museu.
O mundo continua, e há tantas coisas das quais ainda nem ouvimos falar.
Hoje um velho me disse que os tempos mudaram, que os vermelhinhos já se acovardaram há muito, assim mesmo, vermelhinhos, sem Socialismo Real e sem nada, ele me disse que esteve presente durante a Revolução de Maio, adendo, "da qual você nem sequer ouviu falar", e que já não pode mais ser enganado, que já pagou o preço da idade e soube muito bem colher os seus frutos, que eu ainda sou novo, que tenho muito a aprender.
Um velho tucano é só um homem, é só uma ave procurando um bando que não sabe bem onde está, é uma criatura ameaçada por uma vida, por um tempo, por uma país que talvez não sejam mais seus, é um animal de bico duro e língua afiada e não mede palavras, que não se importa com estranhos, que sabe com a mesma certeza de que existe que a vida não é mais uma surpresa, que a vida pra valer já se acabou ali atrás nos velhos tempos, no velho Alamo, e que agora é tudo uma encenação, uma peça de crianças e papier maché.
"Da qual você nem sequer ouviu falar."
São poucos os momentos de forno à lenha e luz de velas que nos permitem sentar sem preocupações, escutar nossos avós desenrolarem lembranças de um mundo totalmente novo e ainda assim empoeirado, a fila na padaria, os cruzados novos, a banca do gato preto, e fica um sentimento de criança com borboletas nas mãos, com medo de respirar forte demais e destruir uma coisa que pouco faz por existir, uma coisa assim da qual eu nem sequer ouvi falar.
Mas eu também já vi suspiros e arrepios vindos da cadeira de balanço, uma coisa besta que encanta e seduz, a nova musa do carnaval, os planetas todos ali na televisão, um mundo todo que se sobrepõe ao nosso permeado de diários eletrônicos e fotos e mensagens instantâneas, as possibilidades todas de saudade amenizada com o toque de um botão, eu vi feitos que se imaginavam impossíveis serem superados um após o outro como fossem nada, e eu assisti a tudo isso com uma naturalidade de quem se sente em casa.
Se as pessoas realmente podem ser de outro tempo, se o vir a ser realmente nos impõe um selo irrevogável que nos condena a um estado de coisas aquém das coisas do mundo, do hoje, se ele nos obriga e condiciona a uma mentalidade temporalmente cristalizada, o que existe não é uma vida, é um museu.
O mundo continua, e há tantas coisas das quais ainda nem ouvimos falar.
19 janeiro 2010
Histórias
Certa vez Barry McGuigan, boxeador profissional, disse:
"I'm a fighter because I can't be a poet. I can't tell stories."
Eu comecei a lutar no momento em que parei de contar histórias.
"I'm a fighter because I can't be a poet. I can't tell stories."
Eu comecei a lutar no momento em que parei de contar histórias.
13 janeiro 2010
Blecaute
OK, agora vai.
Estou voltando para a civilização depois de um bom período de reclusão na caverninha, uma certa antipatia latente de estava bombando aqui por baixo e uma mãozinha de um monitor vagabundo foram mais do que o suficiente pra baixar as cortinas, mas agora as coisas parecem mais suaves, uma nova disposição de férias da qual eu quase já havia me esquecido, uma vontade de louca de correr metaforicamente por aí e de literalmente comer tudo que estiver pelo caminho, porque acima da saudade o que um heremita mais sente é fome.
Livrinho novo, calorzinho do caralho, cuecas novas e PAAANNNZ, tudo engatilhado pra tirar a poeira, o que inevitavelmente me lembra do blecaute de uns tempos atrás e todo esse desgaste por conta de uma super dependência das redes de intregração social, os banhos gelados, as velas acesas, todo esse pânico e cientistas sociais correndo pelas ruas ensandecidos com todas suas teorias da ruína do novo mundo, mas quando a coisa toda parecia mais inevitável foi que descobrimos todas as possibilidades que se escondem na simplicidade das nossas necessidades básicas, e aí o céu todo ficou mais claro, as cartas mais românticas, as pessoas mais presentes.
O meu blecaute acabou.
Estou voltando para a civilização depois de um bom período de reclusão na caverninha, uma certa antipatia latente de estava bombando aqui por baixo e uma mãozinha de um monitor vagabundo foram mais do que o suficiente pra baixar as cortinas, mas agora as coisas parecem mais suaves, uma nova disposição de férias da qual eu quase já havia me esquecido, uma vontade de louca de correr metaforicamente por aí e de literalmente comer tudo que estiver pelo caminho, porque acima da saudade o que um heremita mais sente é fome.
Livrinho novo, calorzinho do caralho, cuecas novas e PAAANNNZ, tudo engatilhado pra tirar a poeira, o que inevitavelmente me lembra do blecaute de uns tempos atrás e todo esse desgaste por conta de uma super dependência das redes de intregração social, os banhos gelados, as velas acesas, todo esse pânico e cientistas sociais correndo pelas ruas ensandecidos com todas suas teorias da ruína do novo mundo, mas quando a coisa toda parecia mais inevitável foi que descobrimos todas as possibilidades que se escondem na simplicidade das nossas necessidades básicas, e aí o céu todo ficou mais claro, as cartas mais românticas, as pessoas mais presentes.
O meu blecaute acabou.
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