08 abril 2009

41 razões



Tenho escutado pouca música, poucos artistas por assim dizer, e a principal razão é ter encontrado uma que me satisfez por completo, que não deixou espaço ou vontade pra mais nenhuma, tão bela, tão boa, tão bonita que depois dela só há espaço para o silêncio, para a saudade, aquela saudade besta e arrependida de sabermos que nunca poderemos escutá-la de novo pela primeira vez.

Fui apresentado à Dave Matthews Band há alguns anos por um amigo e por muito tempo ela foi só mais uma banda, guardada no fundo dos arquivos sem nenhuma atenção, vagarosamente, no entanto, ela cavou seu caminho para a superfície e aprendi a gostar desse estilo todo novo como quem gosta de jazz, como quem adquire um paladar mais refinado pelas cozinhas mais exóticas.

E foi assim, meio sem querer e ainda assim irrefreadamente, que conheci a #41, assim mesmo, uma música quase sem nome, quase sem identidade, tão discreta que mal passa por um erro de impressão, e foi assim que eu escutei a melhor melodia do mundo.

Quando eu era mais jovem me arrisquei na música, implorei por um baixo elétrico, por umas aulas particulares, comprei caixas de som, amplificadores, cabos, comprei CDs, conheci pessoas talentosas, fiz muitos amigos com a música, tive momentos dos melhores aos piores cada um com a sua própria trilha sonora, mas era tudo uma brincadeira, um querer saber se somos uma dessas raras pessoas tocadas por uma coisa que nem sabemos bem o que é, uma coisa assim que se descobre com um susto e um sorriso. Com as brincadeiras de conhecer descobri que não era um bom jogador de futebol, que nunca fui bom em matemática, que computação é algo aquém demais, e mais do que tudo, descobri que tenho mais bom gosto do que talento para a música, e dessa maneira, sem pretensões, foi tudo mais fácil, larguei as aulas, montei uma banda e me diverti como nunca com uma obrigação que achei que sempre tivesse tido.

A banda acabou há muito tempo e deixou até uma gravação de estúdio para as gerações futuras, pra dizer que foi tudo verdade, uma pequena foto sonora do talento que virou brincadeira; mas a música ainda persiste, conheci muitas coisas novas desde lá, coisas muito boas, decepcionantes, já bati cabeça, já dei muita risada e já chorei ao som de muita coisa, mas nada como isso que eu sinto hoje quando esses dois números despretensiosos aparecem no player, quando esse quarto se enche de voz e cordas.

São poucos os momentos que procuramos sentimentos mais graves, mas é uma melancolia deliciosa que enche o quarto, que nos envolve, que nos abraça e afaga, é uma dorzinha lá no fundo do peito, um nó no fundo do nariz com umas lágrimas ousadas que ameaçam sair do esconderijo, uma vontade de que tudo acabe por aqui, uma vontade de morrer de prazer para que não haja tempo de passar, um medo de que a música termine e precisemos sair desse mundinho que cresceu com aquele riff gostoso, com esse mundo de fora que se estilhaçou com uma virada de bateria.

Dave Matthews Band é a prova de que há coisas na vida difíceis de se entender, uma inteligência fora da nossa, uma rede intrincada de relações entre as pessoas e as coisas, entre o trabalho, entre a arte, entre o esforço, entre o conhecimento, entre o talento, é a prova de que há pessoas que criam mundos inteiros, que podem nos dar muito mais do que imaginávamos ser possível, é uma força que passa e tira tudo do lugar, que estremece o que temos de mais delicado, uma tenra, uma gentil destruição daquilo que não importa.

Ainda assim, no dia 19 de agosto de 2008, LeRoi Holloway Moore, saxofonista e fundador da banda, faleceu devido a complicações de um acidente que sofrera meses antes, uma morte besta, dessas que só alguém parte de uma coisa muito grande poderia sofrer.

A morte de LeRoi foi uma das poucas mortes com algum significado para minha vida, e, estranhamente, eu tive o meu próprio luto em homenagem a um dos artistas responsáveis por essa obra-prima que eu considero ser a música #41; coincidência ou não, lá está ele solando como sempre fez, soltando a alma pelos pulmões em uma mágica de presença inegável, e quando Jeff Coffins, saxofonista dos Flecktones e atual substituto de Moore na Dave Matthews Band, começa o seu solo, lá está ele nas sombras, quase fora dos holofotes, LeRoi-que-descanse-em-paz sorrindo, como que abençoando um futuro que o esperava pacientemente.

Moore volta pra casa e deixa saudades por aqui através de um trabalho magnífico, como pedra fundadora da melhor banda que eu tive o prazer e a oportunidade de escutar, de uma banda cujo talento é tão grande, tão destruidor, que passa como uma força da natureza, irrefrável, e deixa um silêncio enorme por uma presença que se esvai, deixa um lugar vago que não queremos preencher, que traz a tristeza de que nunca deixaremos uma marca tão bela para trás, porque pegadas sempre deixamos, mas nada tão sutil, tão delicado e durador como um quadro sem tinta, como um pequeno intervalo de tempo, como tempo e nada mais, um tempo que entregamos com prazer e tememos desperdiçar com qualquer outra coisa, que traz a felicidade de que nada mais importa, de que podemos nos deixar tomar por completo por essa música, que as coisas todas estarão lá mas nós é que seremos diferentes, uma nova esperança de que ainda hajam formas de beleza que a chuva não lava.

A tristeza que temos por não poder escutá-la de novo pela primeira vez é a maior felicidade que existe no mundo.

Um comentário:

carla disse...

eu lembro certinho qnd ouvi essa msuica pela primeira vez! e nem tenho mais o q falar dela...

saudades jack! =*