27 novembro 2008

O fundo da gaveta #2

Nesta casa as portas não possuem fechaduras, um ferrolho de ferro fundido é tudo que separa o vento frio lá de fora e o ar de estufa aqui de dentro; haveriam gatos também - eu, que sempre sonhei com o singular, quando sonhava, agora me rendo -, os chamarei Penélope e Nunca Mais; penso que um piso de madeira gasta, cujas cores de outono se perderam na pressa das botas e no arrastar dos chinelos, seria o mais adequado, a combinar com o couro da rede e a fuligem das paredes; o cheiro, o café torrado abafando a agudez dos perfumes, o mofo dos livros, os gatos do escuro, o sono dos olhos, a cebola e o azeite dos dedos. Esse é meu sonho e nele eu estou sozinho.

Nunca Mais seria o mais reservado, no entanto, sempre o seduzido pela fumaça do cachimbo descansando no parapeito, um sino e uma fita vermelha em seu pescoço, ou qualquer coisa assim que não me deixasse morrer um pouco a cada dia na supresa dos saltos, no roçar da calda esguia nos meus calanhares despidos. Penélope, mais charmosa que o meu senso de humor e menos família com o escuro, cinza, cinza e branca, sentada nas patas traseiras como um cavalete defronte da paisagem, companheira manhosa, companheira exigente, companheira.

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Um comentário:

Thaysa disse...

Nunca Mais =] sinto falta de um certo isqueiro vermelho...