01 novembro 2008

Improviso

É tudo mentira,

os dedos amarelos que seguram o cigarro, mais anemia do que tabaco,

os lábios carnudos vazando em vermelho, mais sangue do que batom,

o perfume caro afogado em suor, os cheiros todos de abraços e mãos e copos vazados, o perfume de presença antiga, de ausência,

não se bebe em público com o mesmo pudor de quem não chora por vergonha,

de quem não ter mais uma alma pra perder e vai,

vai mesmo assim,

vai de qualquer jeito,

sorrindo de braços e pernas cruzadas,

o pescoço distante demais dos ombros,

e ainda assim

vai,

mas não é um corpo em desordem que esconde uma alma acuada,

as coisas estão todas lá

pra quem tem paciência de ler, as linhas de sal nas bochechas,

o sono perdido que se acumula nos olhos,

as horas de angústia emaranhadas nos cabelos,

está tudo lá pra quem sabe ler,

e ainda assim

pagamos um drink

e esquecemos da palavra que o silêncio pede.

.
.
.

(Achei um log do MSN largado por aqui, e eis que encontrei uma brincadeira entre amigos, resolvi então postar a parte que me coube.)

Um comentário:

de bObA disse...

Já te disse como gosto das coisas que escreve...não comentei no post do topo da pagina, por que o comentário da May me inibiu...

Só queria dizer...ou redizer...Te admiro!
^^